SÃO PAULO 1X0 PALMEIRAS

O São Paulo enfim venceu novamente um clássico. O do ano passado, contra o Santos não conta – a equipe da Vila Belmiro beneficiava-se com a derrota na formação da chave seguinte.

         O Tricolor jogou muito bem. O time está cascudo e encorpado. Todos os homens atrás da linha da bola, quando o adversário tem a posse. Bauza não arriscou e só colocou jogadores experientes para jogar.

         Patón é um técnico com procedimentos interessantes. Ele roda o elenco, todos jogam ao longo do campeonato, o que deixa o grupo motivado. No entanto, ao contrário de Osório, há claramente um time titular e pouca oscilação no entra-e-sai.

         As substituições de Patón também são feitas com cuidado para não melindrar os jogadores substituídos. O substituto raramente entra na mesma função e é comum haver substituições seguintes triangulares até haver a recomposição do sistema original, o que também serve para confundir o oponente.

         Dênis ganhou confiança após ser bancado no time titular quando falou seguidamente. Bruno, que vinha jogando bem apesar da falha contra o Internacional, foi igualmente mantido entre os onze originais. Mais um ponto para Patón.

         No jogo de ontem, Matheus Reis limitou-se a defender o espaço defensivo e não comprometeu, ajudado pela boa partida do experiente miolo de zaga composto por Lugano e Maicon.

         No meio-de-campo, Wesley foi um bom substituto para o raçudo Hudson, e Thiago Mendes parece ter reconquistado a titularidade como segundo volante, com muita categoria e a correria costumeira. O período de suplência parece ter sido benéfico para sua recuperação física. Ganso foi mais uma vez o maestro e está claro que se trata de um líder dentro e fora do campo.

         Cuca ensaiou bem o Verdão para neutralizar a bola parada do São Paulo. Lugano foi caçado durante os escanteios e faltas. Porém, como o jogo aéreo é o forte, o Tricolor driblou a vigilância com a chegada de Ganso pelo alto, como já havia marcado na primeira rodada do Paulistão, no empate contra o Red Bull em Campinas, mostrando que o craque também sabe cumprimentar de cabeça.

         O ataque foi o setor que menos rendeu ontem. Centurion e Alan Kardec estavam um pouco melhor, mas em patamar bem abaixo de Kelvin, que entortou a defesa do Palmeiras. O novo ídolo, depois de ontem, fará Zé Roberto pensar novamente em aposentadoria.

Ytalo entrou com boa movimentação, embora tenha perdido um gol feito. João Schimidt quase não pegou na bola, mas foi ao jogo num momento crucial e encorpou bem a meia cancha.

Enquanto a semifinal da Libertadores não chega, o Tricolor não se deixa levar pela ansiedade, está concentrado e vem colecionando pontos no Brasileiro. Figura como candidato potencial a uma das vagas para a Libertadores do ano que vem.

TRICOLOR AINDA RESPIRA

Assisti pela tevê ao jogo São Paulo 1×0 Atlético/MG, pela ida das quartas-de-final da Taça Libertadores 2016. A vitória, ainda que por margem mínima, trouxe otimismo à torcida tricolor.

Parece que o técnico Bauza começa a marcar sua impressão digital na equipe. Suas novidades e apostas surtiram efeito: Ganso está cada vez mais confiante na regência da criação, Hudson surge à vontade como homem-surpresa vindo de trás e Kevin trouxe um frescor de movimentação e velocidade ao ataque.

A grande reviravolta, no entanto, foi na performance de Michel Bastos. Até há pouco escorraçado pelas arquibancadas, o ponta-de-lança se firmou novamente com dois gols decisivos em casa – contra  o Toluca e ontem. Jogador experiente é assim, cresce nos momentos cruciais.

O Galo parece ter mais time, porém jogará desfalcado de dois importantes atletas de meio-campo. Além disso, o São Paulo mostrou-se perigoso nos lances aéreos de bola parada, com Rodrigo Caio e Hudson principalmente, e um gol fora de casa surgido assim pode valer a classificação numa partida amarrada.

Oxalá!

SÃO PAULO 2 x 0 MOGI MIRIM

O dia estava frio e chuvoso, mas não era empecilho para quem é são-paulino até debaixo d’água. Bem que Costela tentou refugar no meio da tarde, porém insisti na manutenção do planejamento e fomos à Capital.

Saímos de Jacareí por volta de 17h20. Antes de nos dirigirmos ao Pacaembu, passamos no Shopping Pátio Higienópolis para jantar o delicioso polpetone com massa fresca do tradicional restaurante Jardim di Napoli.

Chegamos um pouco atrasados no estádio. O jogo havia começado e houve uma certa burocracia para compra de ingressos. Hoje em dia, ir ao campo é mais solene que um teatro. Além de lugar marcado, o comprador tem de apresentar documento oficial de identidade com o número do CPF.

Passada a ansiedade de entrar logo, constatei que a partida estava noutro ritmo, um marasmo. Poucas emoções até o terço final do primeiro tempo, quando o São Paulo tirou o zero do placar. Bruno enfiou uma bola, Rogério entrou no facão e cutucou a bola para dentro do gol. A bola foi morrendo fraquinha, quase não ultrapassou a linha da meta.

Apesar de o primeiro tempo ter sido modorrento, as emoções melhores ficaram reservadas para a etapa final, principalmente após a entrada do classudo e inventivo PH Ganso, no lugar de Rogério, que se mostrou um pouco mascarado e irritou o professor.

Ele finalmente marcou um gol, o segundo na temporada, com um chute rasteiro da meia-lua, que entrou no canto esquerdo do quíper mogiano. O Mogi, além de conter um inarredável erro ortográfico, pois Moji é com ‘j’, é um time a ser rebaixado, nenhum atleta demonstrou um mínimo de capacidade técnica.

De maneira geral, o Tricolor não apresentou bom futebol e, dada a inoperância do meio de campo no setor de criação das jogadas, não empolga a torcida para embates contra adversários mais parrudos.

Dênis foi mais uma vez pouco exigido, mas mostrou segurança quando acionado. Bruno tem suas limitações, embora tenha sido um jogador vibrante na partida. A dupla de zaga foi o ponto alto da equipe. Maicon e Rodrigo Caio parecem formar o miolo ideal. O primeiro é mais xerife e o companheiro tem mais facilidade para sair jogando. Mena foi de novo o elemento mais fraco da defesa, o adversário tentou explorar por ali e só não foi mais feliz por falta de capacidade própria. No meio campo, Hudson demonstrou força de vontade e Thiago Mendes estava um tanto confuso. Centurión redimiu-se com bom toque de bola e cruzamentos perigosos. Calleri caiu muito de produção, em relação à estreia avassaladora. Allan Kardec entrou em seu lugar, mas jogou poucos minutos, só pra ganhar o bicho. Portanto, nem dá para avaliá-lo.

Entretanto, o legal mesmo foi o intervalo do jogo. Eu e Costela aparecemos na tevê e viralisamos nas redes sociais. Para você ver, caro leitor, que sou são-paulino até no frio e debaixo d’água.

PONTE PRETA 1 X 0 SÃO PAULO

É complicado não ter assinatura de tevê fechada em casa. Ou melhor, tem suas vantagens, mas é preciso sair caçando uma tevê a cabo quando se quer ver um jogo.

Foi o caso de ontem, onde fiz o sacrifício de ir a um bar para ver o jogo do Tricolor no telão. Foi péssimo, pois não gosto de ir a bares e o São Paulo de quebra perdeu a partida.

A derrota não foi um resultado merecido, pois a equipe ficou em cima do adversário praticamente o jogo inteiro e foi castigada por um gol de seu próprio jogador emprestado aos campineiros.

A circunstância reflete bem o que é o São Paulo hoje, uma nau à deriva, sem comando fora de campo. A diretoria é de um amadorismo genuíno, pois empresta um atleta sem cláusula que o proíba de enfrentar a própria agremiação. Moral da história: o cara marcou o gol e comemorou como se tivesse decidido a Copa do Mundo.

A defesa está bem montada. Dênis esteve mais uma vez bem no gol, seguro nas bolas mais complicadas. O lateral-direita Bruno subiu pouco, só na boa, preocupando-se primeiro em marcar. O miolo de zaga esteve muito forte, com dois xerifes, Lugano e Maicon. Estranhei um pouco a ausência de Rodrigo Caio, o melhor jogador do time até o instante da temporada, mas deve ter sido poupado porque já tem outro jogo na terça-feira. A única deficiência da primeira linha foi o lateral-esquerda Mena, que teve uma noite desastrosa. Apoiou improdutivamente e, ao mesmo tempo, deixou a defesa completamente desguarnecida naquele flanco.

O meio-campo parece ser o ponto fraco do time, sem evolução desde o início da temporada. Dá conta de adversários pequenos, mas pena contra times de maior potencial e não consegue abastecer os atacantes, que mais uma vez passaram em branco. O grande problema está na recomposição da segunda linha de quatro homens, que parece bastante confusa. Normalmente, fica faltando um pelo lado esquerdo, Ganso ou Michel Bastos flutuam separadamente e deixam espaço para bolas serem enfiadas da intermediária para os espaços vazios do lado esquerdo de nossa defesa. Foi assim que o Soberano tomou gols do Corinthians, The Strongest e, de novo, ontem à noite.

O São Paulo parece mesmo cemitério de atacantes. Calleri começou muito bem, marcando três vezes em dois jogos, mas depois secou e hoje seu futebol está no volume morto, no mesmo patamar do até aqui decepcionante Allan Kardec.

O técnico Patón também já teve jornadas melhores. Desde que inverteu as funções dos reservas Rogério e Wesley, o time perdeu os ases que sempre guardava na manga para o segundo tempo. Rogério vai melhor nas pontas e Wesley no meio, é bem evidente, só o chefe não viu ainda.

O professor também anda mal nas substituições, de algumas partidas para cá. Em busca de ofensividade, vem tirando os volantes e colocando atacantes no lugar. O time fica com vários atletas estáticos lá na frente e a deficiência de armação na meia-cancha permanece, ainda agravada pelos claros surgidos na marcação, dando muitas chances de contra-ataques aos adversários. Como o time tem uma cara tática, ele deveria somente trocar as peças que não estão em bom funcionamento no dia.

Vejamos na terça-feira se o time volta a encontrar o caminho das vitórias.

RED BULL BRASIL 1 X 1 SÃO PAULO

Como alguns sabem, participo aos sábados do programa Panorama Esportivo, na Rádio Mensagem.

Não vou ao programa comandado pelo Mestre Luiz de Oliveira todos os sábados para não me privar do lazer com a família, mas ostento boa assiduidade.

Como o programa dura somente uma hora, com intervalos e vários debatedores, algumas anotações mais longas devem ficar guardadas para o blog, como esta.

Ontem à noite, assisti à estreia do São Paulo no Campeonato Paulista de 2016.

O jogo modorrento foi em Campinas, disputado no estádio da Ponte Preta, contra o Red Bull Brasil.

Como o adversário foi fundado recentemente, é de pouca tradição e, portanto, praticamente sem torcida. A arquibancada estava tomada de torcedores são-paulinos, porém o Tricolor não fez valer o fator “casa” e saiu de lá apenas com um empate por um a um.

Vamos às notas dos jogadores:

Denis: Pouco exigido, mas mostrou qualidade e segurança quando foi preciso. Nota 6.

Bruno: Limitou-se à função defensiva, mas foi bem taticamente e demonstrou bom toque de bola. Nota 6.

Rodrigo Caio: Como sempre, demonstrou ansiedade na entrada da área e cometeu faltas perigosas. No entanto, saiu-se bem no desarme, também no jogo aéreo e participou bastante da partida. Nota 6.

Breno: Começou a partida um pouco inseguro, mas tem qualidade na saída de bola e comandou o adiantamento da linha de zaga. Terá melhor aproveitamento como primeiro volante. Nota 6.

Mena: O lateral-esquerda foi o melhor da linha defensiva. Combateu bem e ainda apareceu para o apoio. Nota 6,5.

Hudson: Demonstrou espírito de luta, mas foi só. Nota 5.

Thiago Mendes: É o pulmão do meio campo tricolor, combate e ataca com a mesma eficiência, mas ficou devendo boa pontaria em arremate de fora da área. Nota 6,5.

Ganso: Pouco participativo na primeira etapa, compensou com o gol de cabeça. No segundo tempo, participou mais do jogo. Nota 6,5.

Michel Bastos: O meio-campista canhoto jogou mais adiantado pela direita para tentar o corte para o meio e arrematar a gol. Embora tenha faltado eficiência, foi o atleta mais perigoso da linha de ataque e ainda cobrou falta que passou perto da meta adversária. Nota 6.

Allan Kardec: Dominado pelos zagueiros adversários, não apareceu para finalizar e, no segundo tempo, foi pouco eficiente como pivô para os que vinham de trás, além de tentar cavar um pênalti. Nota 5.

Centurión: Visivelmente fora de ritmo de jogo. Abusou de jogadas individuais e perdeu algumas bolas que propiciaram contra-ataques perigosos. Ainda assim, deu trabalho ao lateral adversário. Nota 5.

Carlinhos: Entrou no lugar de Centurión e compôs bem o meio-campo, além de ajudar o setor defensivo pelo lado esquerdo. Começou o ano mais em forma que 2015. Poderá ser útil ao longo da temporada. Nota 6.

Lucão: Entrou no lugar de Breno, que se machucou. Cometeu pênalti desnecessário que redundou no empate. Nota 4,5.

Rogério: Entrou no final e pegou pouco na bola. Sem nota.

Edgardo Bauza: O time pareceu mais compactado na defesa e saiu em bloco para o ataque. Substituiu corretamente. Assim como a equipe, pareceu mais vibrante na primeira etapa. Nota 6.

No Red Bull, os destaques foram o lateral Willian Rocha (um dos melhores jogadores da partida), o segundo volante Nando Carandina (boa articulação na saída de jogo) e o camisa dez Thiago Galhardo, ex-Coritiba, que esbanjou categoria e amarelou três jogadores do São Paulo, pois só era parado com faltas. O time fez boa campanha no ano passado e agora promete repetir a dose.

O HERDEIRO DA IRA – II

NO MEIO DA NOITE

 

Era madrugada. O menino acordou e percebeu que estava sozinho na vasta escuridão. Um lagarto cinza gigantesco e monstruoso parecia mover-se embaixo da cama. Se estivesse faminto, poderia sair a qualquer momento de seu esconderijo e comer o garoto. O réptil não era a única aflição. A porta entreaberta do armário no canto do cômodo indicava a presença hostil de um fantasma. A criança assustava-se com os olhos que o fitavam lá do fundo do móvel, pela fresta da porta.

Em poucos segundos, o medo ficou insuportável. Pulou da cama e disparou pelo corredor. Gritava pela mãe, pedia socorro. A luz distante de um foi acesa. Barafustou-se pelo quarto dos pais, em busca de abrigo. O casal acordou sobressaltado. Embora fosse um intruso, o pavor não deixava opção, a única saída era o abraço trigueiro da mãe. O corpo do pai exalava uma suave gota de distanciamento, leve e quase imperceptível.

– Trouxe para você – enquanto o sexto-sentido de Celsinho farejava o imo de João, Marina chegou com uma mamadeira quentinha de leite com pó de chocolate, que acalmou o menino.

Graças ao turbilhão criado pelo ar condicionado, o casal conformou-se em dormir separado, com a criança no meio da cama. O bem-estar proporcionado pelo aconchego materno era completo. Um sentimento crescente de confiança acalmava o garoto, que logo adormeceu.

Um novo sonho acelerou o mecanismo do tempo e João parecia mover-se paulatinamente para o canto do leito, até se ausentar totalmente. Não havia relógio na parede, somente o silêncio caminhava pelo restante da casa vazia. Quando Celsinho acordava, a beleza de Marina estava próxima, contrariada e aflita a esperar pelo marido.

Numa noite imprevisível, quando Marina nem esperava mais, ele finalmente voltou. João estava completamente diferente. Seu nervosismo de insatisfação trouxe uma energia negativa para a cama. Agora o intruso era ele. Ou melhor, a figura dele parecia prisioneira. Todos os cantos do quarto pareciam insuportáveis. Quando ela finalmente destrancou a porta, João nunca mais voltou. Naquele instante, mãe e filho fizeram o que era possível. Simplesmente voltaram para a cama, enquanto o mundo lá fora rugia.

Celsinho não conseguiu consolar a frustração materna e a pequenez pesou-lhe sobre o peito até faltar o ar, como se estivesse de novo sozinho. Não conseguia respirar e acordou desesperado do pesadelo. Quando inclinou o tronco para se levantar, Celso surpreendeu-se por haver adormecido. Olhou as horas no relógio do criado-mudo. Passava das seis da manhã. Perdera a hora. Pensou que tivesse apenas piscado os olhos, porém quatro décadas se passaram. Esposa e filho pequeno dormiam tranquilamente ao lado.

Apesar da volta ao aconchego da família perfeita, a felicidade não perduraria porque os defeitos do mundo, que tanto encantaram João, permaneciam lá fora, à espera para confrontar a ira do herdeiro Celso José Ferreira do Nascimento, que, além das 12 horas ininterruptas de trabalho pela frente, ainda precisaria retificar a data de seu aniversário no registro geral, urgência tantas vezes adiada nas últimas semanas.

O HERDEIRO DA IRA – I

AS CINZAS DE JOÃO

 

Celso teve um sonho aos 12 anos. Estava de carro. Sozinho, dirigia na reta de uma rodovia ampla. Tinha um relógio bonito no pulso esquerdo e o braço recostado na janela. Quando acordou, seu sexto sentido pressentiu que não era um sonho. Agora que vivia a cena, com a sensação de déjà vu, Celso percebeu que foi uma previsão.

A urna com as cinzas de João repousava no banco do passageiro. Ao tomar o acesso da estrada de terra, Celso diminuiu a velocidade do jipe, desligou o rádio e abriu o vidro para ouvir o canto dos pássaros. A tarde estava ensolarada e a área rural de Jacareí apresentava uma profusão de cores que não combinava com o estado de ânimo daquele momento.

Todos os diretores tiravam licença de cinco dias úteis em caso de morte de familiar, mas ele era o chefe e não poderia se dar ao luxo de tirar férias. O trabalho seria uma boa distração e lhe dava prazer, de qualquer forma. Tinha horário flexível, poderia sair a qualquer hora, quando precisasse cuidar de alguma formalidade do inventário.

Quando chegou à ponte de madeira, Sérgio já o aguardava, encostado no parapeito, com as mãos cruzadas atrás da nuca, o mesmo gesto folgado que fazia no carrinho de lanches, enquanto esperava o cachorro-quente ficar pronto. Para ele, a importância dos fatos media-se pelo estômago e outros sentidos primários.

– Boa tarde – Celso guardava uma mágoa do irmão, que soava em seus modos solenes.

– Porra, que demora. Vamos logo com isso.

Celso contrariou-se com a reação do irmão. Teve vontade de reclamar, mas se controlou. Não era hora de dispersar. Naquele momento, o foco era cumprir a última vontade do pai reduzido a cinzas.

Voltou para pegar a urna esquecida no banco do carro. Foi então que parou para prestar atenção nela. A tampa era falsa. Na verdade, era toda lacrada. A parte de baixa era de veludo vermelho e tinha quatro pequenos parafusos, um em cada canto. O detalhe pegou-o de surpresa.

O pensamento de Sérgio era tão raso, que nunca pareceria estar noutro lugar, embora o corpo dele demonstrasse um leve aborrecimento. Interveio antes que Celso se desesperasse:

– Pode deixar, tenho um jogo de chaves de fenda no bagageiro da moto – e lá foi ele atrás da CG125 parada ao lado de um ingazeiro.

Celso escolheu a chave menor e abriu com cuidado a urna, com receio de abri-la acidentalmente e as cinzas se espalharem pelo pasto ou na trilha da estrada de chão.

Aberta a urna, os irmãos foram até o meio da ponte. João nascera bem pertinho dali e queria que seus restos mortais fossem jogados daquela ponte para o Rio Paraíba.

– Já pensou se todos os velhos desejassem que suas cinzas fossem jogadas no rio? Iria assorear o Paraíba – Sérgio não se importava com a memória do pai, queria conversa.

Embora já devesse estar acostumado, Celso irritou-se com a falta de sensibilidade do irmão. Porém, não era o momento de discutir. Sabia que Sérgio não melhoraria jamais. Simplesmente o ignorou e permaneceu em silêncio, embarcando seus pensamentos na máquina do tempo que sua cabeça nunca tirava da tomada.

Destampou a urna. Sérgio olhava de longe, com um ar sardônico de quem acha tudo ridículo. Enquanto a areia misturada caía no rio, as cinzas ficaram por um momento suspensas no ar. Dançavam com o vento e formavam uma nuvem translúcida.

Celso viu que a nuvem parecia o mapa do Brasil. Depois o vento a transformou na figura de um elefante que corria pela savana, nada mais contrário à maneira de viver cartesiana do pai. Por fim, antes de desaparecer entre o rio e o horizonte, a última imagem de João na Terra foi o rodopio de uma bailarina. Logo ele que não sabia dançar, duro como um martelo.

Uma tristeza considerável invadiu o peito de Celso, mas uma seca anterior impedia qualquer choro. Não era a perda do pai e nem tampouco revolta com a imbecilidade do irmão. No currículo de vitórias, as derrotas também se acumulavam ao longo de sua trajetória e pesavam como uma cruz maldita. A vida não poupa ninguém, mas o bom da idade é que, a partir dos quarenta anos, a pessoa tem a opção de escolher como deseja ser humilhada.

– Chega – resignado em se tornar integralmente órfão, Celso desistiu de tentar agarrar as bolhas imaginárias de sabão e deixou os pensamentos abstratos partirem.

– Vamos comer um salgado na Estação do Suco? – Sérgio coroou de vez o péssimo estado de espírito do irmão.

MAIS QUE UMA PARTIDA DE FUTEBOL

Meu pai não era de brincar com crianças. Ele era um adulto. O que diminuía nossa distância etária de quatro décadas era o futebol, único hobby em comum.

Em 1984, lembro-me bem, fomos a Campinas, ver um jogo entre Guarani e São Paulo. A viagem foi planejada, ele ligou para um amigo de lá, que era diretor do Guarani. Infelizmente, o amigo estaria em viagem na data da partida, mas deixou o filho pronto para nos acompanhar.

Viajamos no melhor carro de todos os tempos, o Passat. Meu pai teve quatro – vendia um usado e comprava outro zero. Só trocava a cor. Foi assim durante muitos anos, até o modelo sair de linha.

Choveu durante todo o percurso. Em Araraquara, a tempestade apertou e meu pai precisou parar o carro no acostamento. Ficamos assustados com aquele tanto de água. Esperamos a chuva passar e tivemos uma boa conversa enquanto durou. Era a primeira tempestade que enfrentávamos juntos. Ficamos mais amigos depois disso.

Estávamos apenas nós dois na viagem. Saímos de Rio Preto depois do almoço. O jogo seria à noite, então dava tempo de chegar à cidade, ir ao hotel se arrumar e jantar antes do jogo.

Depois do banho tomado e alguns itens saboreados do frigobar, o filho do amigo passou no hotel para nos pegar. Antes da partida, fomos a uma tradicional choperia no centro de Campinas, onde provei um excelente sanduíche, prato famoso do cardápio. A noite estava linda e eu me sentia extraordinariamente bem.

O amigo campineiro, dentre outros postos importantes, era diretor do Guarani. Então, vimos o jogo do camarote dele, só os três num grande cômodo, posição privilegiada. Quando o filho subiu a janela de ferro, a visão foi linda. Um grande estádio, tudo muito moderno para os nossos padrões interioranos.

Naquele tempo, a tevê passava poucos jogos e a turma do interior aproveitava a presença do time de coração em alguma cidade da região para conseguir ver o time em campo. Nada como assistir a uma partida no estádio, dizem os que entendem de futebol.

O gramado estava bastante úmido, pela chuva que caiu o dia inteiro. A bola quicava nervosa e o time da casa partiu pra cima do nosso Tricolor, que estava em formação, de técnico novo e cheio de novatos.

O Guarani logo fez um a zero e os novos jogadores do São Paulo pareciam um pouco perdidos em campo. Mas, como eram revelações promissoras, o time foi aos poucos se encontrando e virou o jogo no segundo tempo.

Até metade do segundo tempo o São Paulo estava à frente no placar. E ainda teve um pênalti a favor, mas que foi desperdiçado pelo cobrador. Aí o Bugre ganhou ânimo para reagir e o jogo terminou empatado, dois a dois, numa falha do nosso jovem zagueiro Roberto, que não se firmou em time grande, mais tarde fez história como capitão do América de Rio Preto e hoje é técnico.

O São Paulo conseguiu um empate fora de casa, mas o gosto era de derrota, pois a vitória escapou por pouco, devido à inexperiência de alguns jogadores. Porém, via-se um grande time em formação, sob a batuta de um técnico inovador, Cilinho. Estava em gestação um inesquecível esquadrão, os Menudos do Morumbi.

Dormimos em Campinas porque meu pai não gostava de dirigir de noite em rodovia. Dizia que a luz dos carros na direção contrária o cegava. Tomamos café da manhã e voltamos no dia seguinte. Nada de pressa, ele estava aposentado e eu de férias.

Meu pai sempre se lembrava daquela viagem. Não apenas pelo jogo, mas pelo convívio e estreitamento de uma nova amizade. Com doze anos, eu me despedia da infância e começávamos a falar línguas parecidas. Agora que ele partiu, eu também sempre me lembro daquela viagem simples, mas uma experiência familiar e esportiva marcante.

A tevê que Jacareí vê

tv camaraLevo uma vida simples, praticamente monástica: só para dar uma ideia, banda larga e televisores digitais ainda não chegaram aqui em casa. Então, aproveito das visitas hebdomadárias ao luxuoso e aparelhado apartamento de minha sogra para assistir à TV Câmara de Jacareí, que acaba de completar seis anos e tem razões de sobra para comemorar. Afinal de contas, é um canal público interessante e com audiência, situação bastante rara para os canais públicos, no concorrido ibope televisivo.

Creio que o principal atrativo para a audiência da TV Câmara é que nela o jacareiense tem a oportunidade de se ver na televisão: identifica os cenários de sua cidade, reencontra alguns conhecidos e inteira-se de assuntos de interesse local.

Tal viés narcisista, contudo, não retira o mérito do canal, que apresenta qualidade na programação. Por exemplo, todos os dias traz um noticiário exclusivo de Jacareí, marcante avanço para a cidade.

Programa Questão de Ordem

O segmento de prestação de serviços também é valorizado, mediante breves chamadas entre os programas, para fornecer informações relevantes à população, sobre saúde, direito, cidadania e funcionamento de órgãos públicos.

Os documentários já produzidos pela TV Câmara, por sua vez, baseiam-se em aprofundada pesquisa histórica, registram centenas de depoimentos de personagens e resgatam dados que seriam completamente perdidos com o passar dos anos. Alguns temas tratados nestes filmes são de relevância ímpar para os pesquisadores de História, como é o caso da campanha brasileira na Segunda Guerra Mundial, da Revolução Constitucionalista e de Nossa Senhora Padroeira do Brasil.

A grade diária, além de variada, é especializada – tem programa voltado aos esportistas afonsinos e muitas horas dedicadas às atividades culturais. Apresenta até incentivo ao audiovisual, com exibição de novelas, curtas e longas produzidos em Jacareí.

Animação: Tinguera, O Violeiro Errante

A mescla de profissionais experientes e debutantes promissores deu certo e já produziu algumas revelações para o jornalismo valeparaibano, seja na redação, cinegrafia ou apresentadores. A permanecer a filosofia de trabalho, o celeiro de promessas continuará a frutificar.

Corre-se somente um risco: o sucesso da TV Câmara paulatinamente aumentará a expectativa do espectador. Eu mesmo ainda espero ver a transmissão ao vivo de alguns jogos dos campeonatos da Liga Municipal de Futebol.

Para enfrentar de forma eficaz a perspectiva crescente, será indispensável que a TV Câmara prossiga no crescimento, o que depende muito da criação de um conselho editorial composto por diferentes segmentos sociais para conferir maior objetividade na busca incessante pela qualidade na programação.

Além da sugestão, aproveito o espaço para dar os parabéns aos vereadores que apoiam e a todos os profissionais que compõem a TV Câmara.